quinta-feira, 10 de junho de 2010

Epitáfio de um desconhecido

Esta Pessoa

Sentia-se como uma obra de arte exposta ao público ou um filme em cartaz. Estava sempre em evidência sofrendo críticas. Parecia ter o raro dom de incomodar mesmo quando não estava no ambiente.

Aqueles que a amavam e eram muitos, tratavam de dar explicações psicodélicas num esforço quase em vão para salvar a sua imagem que de maneira nenhuma nunca havia se perdido.

Era bom ser ela. Ela só não servia para ser outra pessoa. Ser unissex, ser a mãe que se esperava ou o pai sumido, o irmão ideal, o gatinho que subiu no telhado, o amigo que mudou e não deixou endereço, a namorada que casou com o outro, o pastor que mudou de paróquia, o marido perfeito, a vovó que fazia um bolo inesquecível, a mulher dos sonhos, o banco de empréstimos, o Homem-Aranha ou Jesus Cristo.

Ser “ela” tinha momentos difíceis, mas se ela tivesse sido, por exemplo, você, teria sido muito pior para ambos, pois ela não teria vivido a sua própria história e teria feito a sua vida miserável. Entende?

Era bobagem querer que “ela” fosse como você ou eu.

Agora dormindo em paz, todas as projeções feitas em cima da sua vida, voltaram para os seus respectivos donos, para àqueles que ainda estavam, por sorte, ainda acordados. Ela sempre soube que chegaria o tempo que até mesmo as projeções seriam libertas desta escravidão.

(Epitáfio de um desconhecido)

Nenhum comentário:

Postar um comentário